quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Aparição – Vergílio Ferreira




Numa época onde somos diariamente “assaltados” por novidades editoriais em catadupa, eis que trago aqui um dos livros da minha vida. Um livro que considero um dos melhores da literatura portuguesa e de um autor que não tem, actualmente, o reconhecimento que merecia.


Aparição é uma obra escrita em 1959 e que faz parte do plano Nacional de Leitura. Independentemente da minha opinião sobre esse facto, penso, contudo, que se trata de uma obra algo pesada para a faixa etária em que é estudada, pois e muito injustamente, pode e tenho a certeza que isso sucede, criar anti-corpos sobre a obra de Vergílio Ferreira. Ou seja, tenho a certeza que muitos alunos olham para esta obra e para o nome de Vergílio, com enfado por serem “obrigados” a analisar uma obra que, penso, ainda não tem maturidade para o fazer.


Editado em 1959, a obra narra o primeiro ano de professor de liceu de Alberto Soares que, chegado a Évora, cidade que ele logo classifica de “cidade absurda, reaccionária, empanturrada de ignorância e soberba…”, logo se torna evidente que a relação entre o professor e a cidade não será fácil.


De luto pela recente e traumática morte do pai, Alberto Soares chega assim a uma cidade do interior, desconhecida, muito fechada e rígida a nível social mas que vai criar no personagem uma impressão que ficará para a vida.


Alberto começa por se instalar numa pensão, cujo dono é extremamente moralista, sempre pronto a avisá-lo que não consentiria determinados comportamentos, mas que acaba por lhe facultar a privacidade que ele deseja. 


Pouco tempo depois Alberto acaba por conhecer o dr. Moura, antigo colega do pai e é a partir daí que o trama entra numa nova fase. O dr. Moura tem três filhas (Cristina, Ana e Sofia), todas em diferentes estados etários e que irão funcionar como anjos e demónios na sua vida.


Obra do género existencialista, Vergílio Ferreira, numa escrita assombrosamente bela, poética e muito bem estruturada, constrói uma narrativa onde o seu principal objectivo é questionar o Universo e o papel do Homem no mesmo. 


A corrente existencialista sublinha a ausência de Deus, do céu, do inferno e da vida eterna. O Homem nasce, vive e a morte é o fim de tudo. A nossa existência somos nós que a dirigimos, temos total liberdade em fazer o que bem entendermos da vida, não estando dependente de um Ser Omnipotente que tudo vê.


Desta forma, Vergílio serve-se do seu alter-ego Alberto Soares para questionar de uma forma continuada a existência do Ser Humano, sem simultâneo que não deixa de, sobretudo através da personagem de Sofia que, quanto a mim é a personagem mais forte do romance, de criticar a sociedade e o próprio regime salazarista, pois Sofia demonstra uma independência e uma atitude face ao mundo que a rodeia que podemos de classificar como reacionária, prezando a liberdade e questionando o papel da mulher na sociedade.


No entanto é a constante questão do Eu, do sentido da vida que nos assalta desde o primeiro momento e que, logo na fase inicial tem um momento fulgurante onde Virgilio Ferreira concentra a sua intenção. Recorda Alberto um episódio da sua infância quando se desloca ao seu quarto para buscar algo, julga ali ver um ladrão. Ele grita e logo os pais o acodem e quando o menino afirma que ali estava um ladrão, os pais pegam num candeeiro e vão ao quarto. Ninguém ali está, no entanto o pai de Alberto chama-o e pede-lhe para que ele olhe para o espelho e são brutais, como agulhas incandescentes na nossa carne, as palavras de Vergílio: “Olhei, quem estava diante de mim era eu próprio. Aproximei-me, fascinado, olhei de perto e vi. Vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era, que eu jamais imaginara”. É aqui a primeira Aparição de Alberto que o irá fazer descobrir a si próprio, o seu Eu como uma realidade que está destinado a encontrar um sentido para a vida antes da morte.


É pois um romance soberbo que nos faz pensar no propósito da vida, da nossa vida e do papel que desempenhamos antes de morrer, do caminho que queremos traçar para a nossa vida, no que queremos fazer da nossa vida antes da nossa morte.


Tendo como pano de fundo a cidade de Évora, cidade onde o autor viveu e leccionou entre 1945 e 1959, Vergílio Ferreira descreve também com paixão a cidade, demonstrando um inegável amor pela mesma. Embora algo crítico no início, vai-se notando a adaptação do autor a esta cidade “medieval” alentejana.


Pese embora não tenha tido boas reacções quando da sua publicação, é porém nesse mesmo ano de 1959 que Aparição ganha o reconhecimento com a atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco e ficando como o seu livro consagração.


Uma obra altamente recomendável, que deve ser lida sem nenhum preconceito, pois é uma obra imortal e memorável que, escrita em 1959, é perfeitamente actual e que tem o condão de nos fazer pensar na vida, do nosso Eu e do Nosso Papel enquanto estamos vivos.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Vendedora de Cupidos (A) – José Leon Machado



Tido como o 2º volume de uma trilogia em que o autor se propõe a narrar a situação de Portugal durante três conflitos, sendo que o primeiro volume foi o excelente “Memória das Estrelas sem Brilho” onde o enredo se situa durante a 1ª Grande Guerra, este volume, A Vendedora de Cupidos, situa-nos entre 1943 e 1945 em plena 2ª Grande Guerra e tem como plano de fundo um Portugal rural, onde as suas gentes levam uma vida de trabalho e sofrimento sempre com receio que a guerra que está a suceder na Europa os envolva.


O livro inicia-se com a morte do padre da Gralheira em Dezembro de 1943 que aparece morto na sua cama. Aparentemente falecido de morte natural, o regedor, autoridade policial da freguesia, é chamado para averiguar a ocorrência, procedendo a uma série de averiguações  que o irão fazer ponderar na hipótese de se ter tratado de um crime. Nas suas investigações, irá descobrir que o padre de santo tinha muito pouco e que se havia envolvido com uma mulher casada, e casada com um homem rico e importante e, para além disso, que esse padre estava envolvido no desvio de volfrâmio de uma mina explorada por uma companhia alemã.


É, diga-mos, esse o ponto de partida para um enredo que, na minha opinião, não tendo a qualidade e o interesse do livro antecedente, é, porém, bem conseguido e que nos lança numa série de eventos muito interessantes e que nos irão dar a conhecer um Portugal profundo, cheio de superstições e de conceitos que, a meu ver, pouco mudaram, ou seja, é possível perceber que a mentalidade lusitana pouco ou nada mudou desde essa altura.


Por outro lado temos também a questão da extração do volfrâmio e dos jogos políticos do governo português que, de bem com Deus e com o Diabo, permitiram Portugal ser uma nação neutra e assim evitar a invasão nazi que paira desde o início. Percebemos, dessa forma, como se jogaram os dados, satisfazendo ambos os lados do conflito e a importância vital que o volfrâmio teve.

Mas e tirando esse facto histórico, temos um enredo que gira de início a fim sobre a misteriosa morte do padre, trazendo-nos alguns personagens do livro anterior, pese embora tenham uma participação secundária, porém uma participação que gostei, embora não me tivesse importado que a sua participação tivesse sido mais incisiva.

De salientar também as várias “considerações” que o autor vai fazendo ao longo da obra: “A justiça nunca foi feita para castigar os criminosos. A justiça existe para salvaguardar os seus interesses e livrá-los do castigo.”. Às tantas, numa conversa onde se fala sobre os Lusíadas, alguém afirma: “A visão que dá dos portugueses é uma farsa. Nós não somos um povo de heróis. Somos um povo de ladrões e oportunistas”, e outras considerações pouco abonatórias para os políticos…

Em todo o caso gostei muito do livro e vou procurar ler agora o terceiro volume: Heróis do Capim, este editado em 2016.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Dia da Independência: Nova Ameaça
Título original: Independence Day: Resurgence
Realizador: Roland Emmerich
Género: Drama, Ficção Científica

Outros dados: EUA/Afeganistão, 2016, Cores, 120 min.

Há 20 anos foi realizado o mega sucesso "Dia Da Independência" em que uma força extraterrestre invade a Terra e tenta extinguir a raça humana. Cheio de efeitos especiais que na altura eram top, o filme vê-se bem e de facto acaba por valer, na minha modesta opinião, pelos efeitos visuais e pela participação de Will Smith.

Agora, em 2016, precisamente 20 anos depois desse filme, eis que surge uma sequela em que narra a volta desses extraterrestres agora ainda mais determinados em destruir a Terra. Como actores mais sonantes, temos Liam Hemsworth, Jeff Goldblum e Bill Pullman entre outros que facilmente conhecemos de outras aventuras. Há semelhanças entre este filme e o primeiro mas única e exclusivamente no embrião do argumento e nos efeitos especiais visuais, quanto ao resto este filme é dos PIORES FILMES que alguma vez, não conseguindo, mesmo tendo feito um esforço sobre-humano, conseguido assistir até ao fim (fiquei a 30 minutos do término).

O filme não tem ponta por onde se pegue.

O argumento é muito pobre, praticamente uma cópia barata do primeiro filme, o desempenho dos actores é abaixo de paupérrimo, nem as habituais piadas de Jeff Goldblum se salvam diante de tanto amontado de parvoíces, más interpretações, e inexatidões cientificas, assim como catrefadas, bateladas de falta de senso que tornam o filme numa amálgama sem sentido, num ritmo modorrento que nem as fabulosas explosões e espalhafatosas naves espaciais o conseguem tirar.

É que, honestamente, tirando alguns efeitos visuais bem conseguidos, não consigo ver nada de positivo no filme. O argumento é abjecto, tantas as imbecilidades. A prestação dos actores é algo que só se admite a actores infantis e mesmo assim em início de carreira. As piadas que insistem em proferir mesmo diante de grandes perigos e mortos por todo o lado são, enfim, estupidas (para ser meigo), até a recção dos supostos poderosos governantes unidos de todo o planeta é caricata, parecendo mais que estão todos entretidos num qualquer jogo do que em salvar o planeta de um maciço ataque extraterrestre.

Enfim, foi uma hora e meia de suplício, sempre à espera que o filme mudasse, até desistir e nem ficar para ver qual o epílogo de tal miséria.

Respeito que tenha gostado, ainda bem que nem todos gostamos do mesmo e esta é a minha opinião. Do que tenho visto, este é um dos PIORES filmes que vi até hoje e acreditem que já assisti a filmes mauzinhos.

E ainda há a pretensão de realizarem um terceiro... 




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Memória das Estrelas Sem Brilho - José Leon Machado

Há livros que têm a capacidade de nos surpreender. Livros cujo título nos é completamente desconhecido mas que, fruto de acasos, nos chegam às mãos e que, quer pela história que narram, quer pela qualidade da escrita, nos surpreendem pela positiva, deixando, no fim, uma sensação de tristeza e alegria. Alegria porque tivemos a sorte de o ler, tristeza, por vermos partir personagens que conviveram connosco durante dias, semanas, tornando-se amigos, quase família.

Memória das Estrelas Sem Brilho é um destes livros. Provavelmente o melhor livro que li em 2016 (sinceramente já nem aponto o que leio), foi um livro que li devagar porque comecei a gostar tanto que não queria que terminasse. Dessa forma li-o devagar, saboreando a narrativa letra por letra, palavra por palavra. Adorei conhecer os seus vários personagens encabeçados pelo Alferes Luis Vasques que, com a sua narrativa, nos dá uma imagem clara e real do Portugal dos anos da Primeira Grande Guerra e sobretudo a intervenção portuguesa na Guerra ao lado dos Aliados.

O livro é um relato de memórias que intervala entre esse período e o pós Guerra, no entanto sobressai as difíceis condições da Guerra da de trincheiras e sobretudo a hipocrisia que esteve por detrás do envio do CEP para França. Um exército mal preparado, sem motivação nenhuma que descamba no desastre do dia 09 de Abril de 1918 na Batalha de La Lys. É surreal, em 2017 e quase a completar cem anos, nós lermos sobre a matança que foi essa guerra e no que o exercito português estava lá a fazer.

O livro tem um ritmo estonteante. Agarra-nos logo desde o inicio e nunca desmorece esse ritmo, denotando igualmente uma apurada investigação sobre os factos.

Este livro faz parte de uma trilogia que se pode ler de uma forma independente e que tem como objectivo centrar-se nos vários conflitos militares onde Portugal participou, directa ou inderectamente no Século XX.

Proximamente irei ler o 2º volume: “A Vendedora de Cupidos”.


Repito: um excelente livro que me proporcionou horas de autêntico prazer literário.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Vaticanum – José Rodrigues dos Santos



Conforme é do conhecimento de muitos, sou um apreciador dos livros de Rodrigues dos Santos. Não pela qualidade literária, porque isso de facto tem muito pouca, mas porque os livros dele preenchem um dos principais requisitos que a meu ver tem de estar contido num livro: entretém. Para além do entretenimento, os livros dele são um manancial de informação que, obviamente, podem agradar mais a uns do que a outros pela temática, mas é facto é que os livros dele possuem sempre muita informação.


Em todo o caso e pese embora já os tenha lido todos, há livros que gostei muito e outros que nem por isso. Confesso que, por exemplo, os últimos livros dele não me têm agarrado por aí além, mas recordo sempre com saudades livros como “A Filha do Capitão”, “Codex 632“ ou “A Fórmula de Deus”, livros, quanto a mim, muito bem conseguidos e que despertaram a minha curiosidade sobre os temas abordados.


Este último volta a colocar em cena o historiador/detective/criptanalista Tomás Noronha que se encontra nas catacumbas do Vaticano a analisar o suposto túmulo de Pedro, o Apóstolo de Jesus Cristo que, segundo a História, deu origem à Igreja Católica, sendo considerado o Primeiro Papa.


O enredo passa-se todo num simples dia, uma aventura vertiginosa que se inicia quando o Papa é raptado por alegados membros do Estado Islâmico e que, segundo estes, será decapitado em directo à meia-noite se os países católicos não se converterem ao Islão ou não pagarem um suposto valor que está referido no alcorão.


Obviamente que depressa Tomás Noronha se vê envolto nos acontecimentos e é vertiginosa toda a acção.


Pese embora o objectivo central do livro seja a corrupção no seio do Vaticano, o livro quanto a mim peca em vários factos que acabam por lhe dar pouca credibilidade, isso na junção entre o enredo ficcional e o verídico. Penso que um dia apenas é muito pouco para 600 páginas de alucinantes correrias. Os diálogos sobre a corrupção são colocados um pouco à força. Poucas horas antes do prazo terminar, Tomás está em amena cavaqueira de dezenas de páginas sobre os meandros mafiosos que abalam o Vaticano. 


Depois no final tudo se desenrola em poucos minutos e, obviamente, o final é o esperado com as habituais “mariquices” que o autor, a meu ver, desnecessariamente, continua a insistir em colocar nas suas histórias.


Em todo o caso e embora tenha gostado do livro, o mesmo não me criou um grande pasmo, pois já li várias obras sobre corrupção no Vaticano, algumas das quais vêm referidas na Nota Final, ou seja e ao contrário de outras obras, Rodrigues dos Santos não nos conta nada de novo, limita-se a limar certos factos amplamente conhecidos e a aproveitar o que muitos já escreveram sobre o tema.


Sinceramente esperava um pouco mais, pese embora, repito, seja um bom livro da Série “Tomás Noronha” que, e isso é algo que quero realçar, se mostra um pouco mais “adulto” em relação a outras aventuras suas.